Atualidade

“Cabe ao enfermeiro demonstrar empatia e humanidade”

02 Fev. 2021

“O papel do enfermeiro, na gestão da doença oncológica, assenta essencialmente na resposta às necessidades humanas fundamentais, na comunicação, na transmissão de informação, na tomada de decisão, na relação de ajuda e no suporte emocional.” É este o entendimento da enfermeira Raquel Martinho dos Santos, do Serviço de Oncologia do CHLN - Hospital de Santa Maria, em Lisboa, em declarações ao Jornal Enfermeiro a propósito do Dia Mundial do Cancro, que se assinala a 4 de fevereiro.

Uma perspetiva que decorre do facto de a doença oncológica ser uma doença crónica que persiste, recidiva e exige terapêutica por longos períodos, afetando o doente e a respetiva família. De acordo com a enfermeira, numa primeira abordagem, no acolhimento do doente no hospital de dia, é realizada uma consulta de enfermagem, onde é feito um enquadramento da doença e do tratamento de quimioterapia, explicando em que consiste o tratamento, e quais são os eventos adversos esperados, assim como a sua gestão dos mesmos. É feito um levantamento das necessidades do doente e família, gerindo expetativas, e encaminhando ou alocando os recursos necessários, de acordo com as necessidades apresentadas. “O enfermeiro acaba por ser o elo de ligação entre o doente e os restantes recursos humanos disponíveis no serviço, instituição e até mesmo na comunidade”, sublinha.

Na sua opinião, “a comunicação e a confiança nos profissionais de saúde, em especial na equipa de enfermagem, são de vital importância para que os doentes e famílias se sintam participantes ativos na tomada de decisão, inerente ao processo de doença/tratamento, traduzindo-se num maior envolvimento em todas as fases do mesmo”. “A informação e o esclarecimento adequado dos doentes permitem minimizar os eventos adversos, não só em frequência, mas também em intensidade e duração. É fulcral o profissional ter a perceção da capacidade que o doente e família têm de absorver a quantidade de informação que lhes é fornecida bem como a complexidade da mesma”, salienta.

No caso específico do cancro da mama, a intervenção do enfermeiro vai um pouco mais além: “Não se baseia apenas nos aspetos focados anteriormente, mas também no tratamento da ferida maligna da mama, quando está presente. O enfermeiro poderá iniciar o tratamento à ferida, e posteriormente encaminhar para os cuidados de saúde primários, uma vez que a doente não vem todos os dias e/ou semanas ao hospital realizar tratamento.”

Entende, neste contexto, que é “crucial abordar a parte da sexualidade, uma vez que muitas vezes a autoimagem e autoestima das mulheres com cancro da mama ficam bastante afetadas, pela mutilação física associada à mastectomia”. “Também a queda do cabelo é algo que ocorre muito frequentemente no decorrer dos tratamentos de quimioterapia direcionada para o cancro da mama, e muitas vezes somos questionadas sobre qual a melhor solução: cortar ou não cortar? Prótese capilar ou lenço? Entre outras questões. Pela proximidade na relação terapêutica, é o enfermeiro quem esclarece estas dúvidas e presta o aconselhamento necessário”, relata. Deixa ainda a nota de que, em matéria de cancro da mama, existem vários ensaios clínicos a decorrer, sendo de “suma importância o papel do enfermeiro do enfermeiro na orientação do doente oncológico”.

Já quanto à prevenção e ao rastreio, a enfermeira Raquel Santos considera que a intervenção poderia ser mais alargada. “Além da primeira consulta de enfermagem, seria de extrema importância existir uma consulta de follow-up, de modo a ter uma perceção do estado da doente, se ficou com dúvidas em relação à toma da terapêutica oral, se houve uma adequada articulação com a equipa de cuidados de saúde primários no que respeita à realização do penso, se teve algum evento adverso, entre outros aspetos. No que diz respeito à prevenção e rastreio, isso não se verifica tanto no meu serviço, uma vez que as doentes nos chegam com um diagnóstico definido, para realização de tratamento de quimioterapia. No entanto, é possível sensibilizar para a importância de realizar os rastreios de saúde definidos para cada faixa etária, tendo em conta os antecedentes pessoais e familiares de cada doente”, contextualiza.

No que toca ao acompanhamento posterior dos doentes posteriormente aos tratamentos oncológicos, baseia-se essencialmente na gestão da toxicidade resultante dos mesmos. “Presentemente, o nosso serviço tem um contato de urgência, permitindo ao doente ligar sempre que necessário, para esclarecimento de dúvidas, sendo aconselhado e encaminhado.  A manutenção dos cateteres venosos centrais totalmente implantados, vulgarmente conhecidos como Implantofix®, após o términus do tratamento endovenoso é uma das intervenções do enfermeiro”, concretiza.

Toda esta atividade tem, no entanto, sido condicionada pela pandemia de Covid-19. A enfermeira do Hospital de Santa Maria partilha que “os doentes esperam muito mais tempo pela realização de meios auxiliares de diagnóstico, levando a um diagnóstico mais tardio e um estadio mais avançado da doença oncológica. Os doentes têm muitas vezes consulta telefónica, tendo um grande prejuízo na gestão e adesão ao tratamento”. Acresce que também a necessidade de realização de testes de diagnóstico de Covid19 periodicamente e as alterações na dinâmica dos serviços são “fatores que causam grande sofrimento e ansiedade aos doentes”, desde logo porque, neste momento, não são permitidos acompanhantes na realização dos tratamentos, “provocando um sentimento de desamparo e solidão em alguns doentes oncológicos”.

No que toca à unidade onde trabalha, dá conta de que várias estratégias foram criadas e adaptadas desde o início da pandemia. O serviço foi reorganizado de forma a diminuir o número de vezes que o doente oncológico se desloca ao hospital, sem comprometer a segurança clínica. Foi criado um circuito próprio, separando os doentes oncológicos dos circuitos dos doentes Covid, de modo a minimizar o risco de contágio.

A criação de um posto de triagem para avaliação da temperatura corporal e identificação de potências queixas de Covid-19, assim como o aumento da frequência de realização de testes de rastreio, foram outras medidas adotadas pela equipa multidisciplinar do serviço. Todos os doentes oncológicos em tratamento foram aconselhados a manter autovigilância diária dos sintomas sugestivos de Covid-19.

Foi essencial – diz – a criação de uma linha de apoio telefónico, de modo a triar as queixas dos doentes e encaminhá-los para o serviço hospitalar mais adequado (urgência de oncologia vs urgência geral/ covidário), revelando um aumento da segurança e qualidade nos cuidados prestados aos doentes oncológicos.

“Cabe ao enfermeiro, uma vez mais, a gestão da expetativa, demonstrando empatia e humanidade, face à necessidade do outro”, conclui.

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