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COVID-19: um “vírus” na Dermatologia? – Desafios e oportunidades na prática clínica

03 Dez. 2020

A pandemia de COVID-19 trouxe consigo uma necessidade de readaptação e um foco em soluções, que foram transversais a todo o setor da saúde. Para analisar boas práticas que possam auxiliar o trabalho das equipas de Enfermagem neste contexto, a Abbvie, em conjunto com a APEDerma (Associação Portuguesa de Enfermeiros em Dermatologia), organizou o webinar “COVID-19: um “vírus” na Dermatologia? – Desafios e oportunidades na prática clínica”, uma sessão dedicada à classe dos enfermeiros.

Um painel de especialistas na área da enfermagem partilhou as realidades dos diferentes centros onde trabalham, permitindo ficar a perceber a panorâmica nos hospitais públicos, nos privados e em clínicas, discutindo e partilhando experiências sobre os desafios e oportunidades na prática clínica na 1.ª vaga da pandemia, as aprendizagens e o que poderá ser implementado na 2.ª vaga. O webinar, promovido pela News Farma, contou com a moderação do Enf.º Miguel Teixeira, presidente da APEDerma.

O Enf. Miguel Teixeira abriu a sessão começando por apresentar a recém-criada APEDerma (Associação Portuguesa de Enfermeiros em Dermatologia), a sua missão e valores. A APEDerma tem como objetivo “apostar na prestação de cuidados de enfermagem em dermatologia, promovendo e apoiando ações que levam a uma melhor formação, a uma melhor prática e investigação”, começou por indicar o seu presidente.

“Gostávamos de elevar a um nível de excelência os cuidados de enfermagem em dermatologia, aumentando a satisfação dos nossos utentes”, assumindo o utente “como foco da nossa atenção”, adiantou o Enf. Miguel Teixeira, que exerce funções de enfermagem no serviço de Dermatologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia.

A APEDerma pretende, num espaço de três a quatro anos, “ser uma entidade representativa da classe de enfermagem em dermatologia”, tornando-se uma referência. Tem como fins promover a divulgação de assuntos relativos à enfermagem no geral e à enfermagem dermatológica em particular, com o propósito de contribuir para valorizar as competências e aptidões dos enfermeiros – desenvolvendo projetos de investigação/estudos na área da enfermagem dermatológica, fomentando formação pós-graduada –, bem como participar na reflexão em matérias de políticas de saúde na área da enfermagem dermatológica.

Finda a apresentação da nova associação na área da enfermagem dermatológica, teve a palavra a Enf.ª Ana Gouveia, do Centro Hospitalar Universitário do Porto, que falou sobre os desafios e oportunidades que surgiram na consulta de Dermatologia, na primeira vaga da pandemia.

As consultas passaram todas a não presenciais, os tratamentos que costumavam ser feitos em salas sem ventilação foram suspensos, bem como os que fossem realizados com consultas prévias (como crioterapia, testes epicutâneos, fototerapia e terapêutica fotodinâmica). “A pequena cirurgia foi toda suspensa, tal como foi suspensa a cirurgia no bloco, exceto as cirurgias urgentes, as de melanomas, de carcinomas basocelulares, tudo o que fosse mais grave foi feito”. Adianta, ainda, que os tratamentos com medicamentos biológicos não foram suspensos, mantendo a normalidade.

Analisando as dificuldades sentidas, revela que “tivemos menos enfermeiras, umas estiveram doentes, outras estiveram com COVID-19 e outras em confinamento por terem filhos menores de 10 anos, tivemos também pouco equipamento de proteção individual para os profissionais de saúde”, e houve também alguma dificuldade na adesão à terapêutica, pois os doentes estavam assustados com o que ouviam dizer relativamente à medicação, “mas todos os doentes mantiveram o tratamento”. Relativamente às melhorias, a Enf.ª Ana Gouveia salientou o facto de ter sido “possível marcar consultas mais espaçadas, para minimizarmos o risco de contágio por COVID-19, e o aumento do feedback sobre o estado clínico do doente, através dos telefonemas que nós fazemos”.

Seguiu-se a apresentação do Enf. Luís Dias, do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, que partilhou a sua experiência em terapêutica biológica, em contexto de Covid-19, em ambulatório de Dermatologia.

A declaração de pandemia fez com que surgisse a necessidade de reorganização dos serviços, que “levou a alterações na nossa atividade assistencial”, começou por explicar. “A maioria dos utentes estava a fazer a administração da sua terapêutica biológica em consulta e não tinham a competência necessária para gerir o seu regime terapêutico” e, como em pouco espaço de tempo nunca iriam conseguir autonomizar os utentes a esse nível, o Serviço de Ambulatório em Dermatologia decidiu fazer a manutenção destes tratamentos no início da pandemia.

O Enf. Luís Dias explicou que a alteração da atividade assistencial implementada aquando da declaração do estado de emergência nacional, teve como objetivo autonomizar os utentes relativamente à administração da sua terapêutica e à gestão do seu regime terapêutico, para evitar que eles se expusessem ao risco de infeção vindo ao hospital múltiplas vezes e tentámos canalizar todos os utentes sob terapêutica biológica para sessões de hospital de dia”. Foram preconizadas duas sessões de Hospital de Dia por utente: na primeira eram instruídos relativamente à auto-administração e gestão do regime terapêutico, e numa segunda sessão era realizada uma validação das suas competências relativamente à instrução disponibilizada na primeira sessão.

Com a implementação destas medidas foram obtidos ganhos significativos no que se refere a autonomização dos utentes, monitorização do seu estado de saúde, melhoria da prática clínica e ganhos em horas de cuidados de enfermagem, que puderam ser canalizadas para outras áreas de intervenção.

A palestrante seguinte foi a Enf.ª Teresa Borralho, do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, que partilhou a situação vivida no Serviço de Dermatologia, consulta externa e hospital de dia. Na primeira vaga da pandemia os circuitos foram repensados, os ensinos e esclarecimento de dúvidas passaram a ser feitos à distância, telefonicamente.

Falando sobre os doentes sob terapêutica sistémica, a Enf.ª Teresa Borralho indica que “Não houve caso nenhum de um doente que tivesse que parar a medicação oral sistémica, tiveram os devidos cuidados e passaram a ser seguidos por telefone porque deixámos de ter consultas presenciais”.

Em contexto de pandemia, a decisão de iniciar medicamentos biológicos em doentes com urticária, eczema atópico e psoríase “teve sempre em consideração o benefício risco para o doente. Conseguimos que esses doentes não deixassem de ser incluídos, vieram na mesma fazer a sua administração ao hospital, levantar o medicamento”, acrescentou.

A Enf.ª Márcia Rodrigues, da CUF Descobertas, trouxe a realidade vivida no Serviço de Dermatologia que, numa primeira fase, reduziu “o horário de prestação de cuidados e o número de pessoas a prestar cuidados e parámos todos os tratamentos que estavam a ser feitos aos doentes. Apenas se mantiveram as cirurgias dermatológicas prioritárias (melanomas e carcinomas), terapêutica biológica nos casos em que assim era necessário”, e a equipa foi dando continuidade aos cuidados via telefone, esclarecendo dúvidas dos utentes.

Focando-se na terapêutica biológica, um dos tratamentos realizados no Centro de Dermatologia da CUF Descobertas, a Enf.ª Márcia partilhou que “destes desafios que nos foram sendo colocados, nomeadamente nesta específica terapêutica biológica, deu a grande oportunidade a um projeto que já estava a ser pensado mas que ainda não tinha tido oportunidade de ser implementado, que foi o início da consulta de enfermagem de psoríase”. Puderam, assim, estruturar e por em marcha uma consulta que dê resposta, integrada com a consulta médica da psoríase, às necessidades dos doentes com a patologia.

O fecho do webinar “COVID-19: um “vírus” na Dermatologia? – Desafios e oportunidades na prática clínica” coube à Enf.ª Joana Valério, da Clínica Laser de Belém, que partilhou os procedimentos adotados na 1.ª vaga da pandemia, destacando que a unidade de Dermatologia e Cirurgia, bem articulada e organizada, nunca parou na íntegra e que foi criado um atendimento telefónico 24 horas.

“A clínica decidiu não fazer teledermatologia”, explicou, algo que chegou a ser solicitado, mas a triagem era feita por via telefónica e se surgisse uma situação que tinha realmente que ser avaliada brevemente, os doentes vinham à consulta, não ficariam à espera”.

Tendo em conta a dificuldade do levantamento da medicação em farmácia hospitalar, que já existia pré-COVID, com tempos de espera muito longos, e “que é desnecessária para o serviço e para o utente. A Enf.ª Joana Valério revelou a vontade de criar um processo que permitisse uma maior facilidade de aquisição de medicação: “Temos que nos juntar para criar uma articulação e um projeto que possa ser estendido às farmácias hospitalares, as medicações podem ser controladas mas escusam de ser estritamente levantadas nos hospitais, e se calhar a farmácia domiciliária pode ter um papel importante nesse aspeto”.

Houve ainda tempo para responder a questões que foram sendo colocadas por quem estava a acompanhar o webinar.

Reveja aqui o webinar na íntegra.

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