IGAS não comprovou "nenhuma" das denúncias de Ana Rita Cavaco

sexta, 20 janeiro 2017 09:52

Em dezembro passado, a bastonária da Ordem dos Enfermeiros (OE), Ana Rita Cavaco, denunciou a falta de comida e medicamentos num hospital público. A inspetora-geral das Actividades em Saúde, Leonor Furtado, diz que a inspeção realizada não comprovou essas afirmações, mas a bastonária não está satisfeita com o resultado da investigação e admite recorrer ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

Segundo a bastonária, vários doentes teriam estado dois dias sem comer e sem medicação, não adiantando, no entanto, qual era o hospital em causa. Disse, dias depois, ter entregue à Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) todos os elementos que tinha recolhido, para que se avançasse com a "devida investigação e apuramento de responsabilidades".

Em entrevista ao jornal Público, Leonor Furtado, afirma que foi realizada uma inspeção ao Hospital dos Capuchos, mas que não foram comprovadas as denúncias da bastonária. Deixa ainda saber que Ana Rita Cavaco não apresentou queixa à IGAS, tendo sido a própria a questionar sobre as denúncias.

"Ela não fez queixa nenhuma. Fui eu própria, em face do que estava a ocorrer, que estranhei que não me tivesse sido comunicada de imediato uma situação dessas e contactei-a. A seguir, fizemos uma inspeção e o que posso afirmar é que não resultou comprovada nenhuma das suas afirmações", revela a inspetora-geral.

Questionada sobre o facto da IGAS não ter anunciado antes o resultado da investigação, a responsável responde ao jornal que isso não lhe compete.

"A mim compete-me realizar o meu trabalho e dizer à tutela. Nesta fase o caso está na fase de contraditório. A senhora bastonária pode dizer o que quiser, é uma espécie de sindicato. Eu tenho de fazer um trabalho silencioso. O que não pode acontecer é alguém dizer que soube de um caso e depois não pormenorizar, não dizer quem lhe fez chegar a informação. Isto não é sério. Há aqui também uma questão de ética profissional: então as senhoras enfermeiras verificaram uma questão daquelas e não participaram aos seus superiores hierárquicos? Quem é o enfermeiro que está num serviço e que verifica que não tem medicação para dar aos seus doentes e segue feliz e contente?", questiona Leonor Furtado, acrescentando que "este tipo de afirmação que pode gerar alguma insegurança no cidadão devia ser tratado com cautela".

A OE reagiu à entrevista da inspetora-geral da IGAS com "estranheza e incompreensão".

"A Ordem dos Enfermeiros estranha que a Inspecção-geral das Actividades em Saúde tenha apresentado à imprensa as conclusões de um projeto de relatório sem solicitar, para a elaboração do mesmo, a denúncia concreta que nos chegou por escrito, e sem ouvir todos os profissionais do serviço em causa. Estranhamos igualmente que os peritos da OE que visitaram a unidade também não tenham sido ouvidos e que não nos tenha sido solicitado o relatório dessa mesma visita". A OE não compreende também "que a senhora Inspectora-Geral da IGAS não tenha aceite o convite da senhora bastonária para uma visita em conjunto a 14 de dezembro alegando «falta de meios». Porém, com grande surpresa, constatámos pelo projeto de relatório que os inspetores da IGAS visitaram o serviço no mesmo dia", lê-se em comunicado.

No mesmo documento, a Ordem afirma já ter informado a IGAS que "o projeto de relatório não é satisfatório, pelo que seguirá para a Procuradora-Geral da República, juntamente com a denúncia escrita e outros meios de prova recolhidos". Adianta ainda que tudo fará "para garantir a segurança dos doentes e a qualidade dos cuidados, nem que para isso seja necessário recorrer ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem".